Olhar as mesmas coisas todos os dias. Vê-las da mesma forma, com os mesmos conteúdos. Não querer simplesmente acreditar que as próprias coisas são assim, na forma e no conteúdo. Repetir gestos, pronunciar as mesmas palavras de sempre, requentá-las esperando um novo sabor... Nada! Apenas aquela crença que sempre nos acompanha pode nos fazer acreditar que há, de fato, alguma perspectiva de mudança, de outras coisas que pudessem ser ou estar com significados diferentes. Mas, no fundo, não sei de quê, ou de onde... não queremos apostar em possibilidades perdidas, em questões sem qualquer importância, em perspectivas nulas de sentido e sentimento. Essa estranheza que nos traz sempre à mesma superfície da qual nunca submergimos. Não há qualquer suspensão, apenas temporalidades não reconhecidas, tudo parece ser lapsos seqüenciais, essa mesma sensação de despertencer, de se abandonar propositalmente, porque é necessário, porque será somente assim que esbarramos em nós mesmos e nos assustamos, porque não nos conhecíamos, porque não esperávamos nada de nós. De revestrés não muda o olhar em si, somente o ângulo que produz a imagem a ser interpretada. A tarefa é estar sempre buscando outras interpretações de sentido, outras significações para as mesmas coisas, por que aquelas já dadas estão saturadas de referencialidades? Que seja, então, mais esta tentativa vã de aplacar um sofrimento sem fim, uma imbecilidade contagiosa, uma mediocridade cotidiana perigosa, um sem número de questiúnculas desprezíveis que inundam nosso cotidiano de mais misérias humanas...